Fátima Florentino

A sujeira na calçada do vizinho



Fátima Florentino*

Minha mãe tinha o hábito de varrer a calçada todos os dias. Ela não se limitava a varrer apenas a calçada da nossa casa. Varria um bom pedaço das calçadas vizinhas e da rua também. Eu achava esquisito, aliás, na realidade, eu achava uma idiotice.
Quando adulta, a questionei sobre isso e a resposta que ela deu calou-me a boca e ajudou-me a refletir sobre muitas coisas que acontecem no mundo.
“Se eu varro somente a nossa, daqui a pouco a sujeira da calçada do vizinho ou da rua, estará sujando a nossa calçada.”
Ao lermos as notícias de tudo que acontece em nossa cidade, no nosso país e no mundo, pouco nos importamos, não nos preocupamos com os fatos ali apresentados. Eles parecem não nos afetar, parecem estar muito distantes de nossa realidade, do nosso mundo particular, como se aquilo jamais fosse acontecer perto de nós ou nos atingir. E é aí que nos enganamos.
As guerras no Oriente Médio afetam o preço de vários produtos que importamos, como o petróleo, produtos petrolíferos e adubos, e de outros que exportamos, como a carne de frango, milho e minérios. Pagamos um preço alto por isso.
Os conflitos na Venezuela refletem aqui, no nosso território. O fluxo migratório, o crime organizado nas fronteiras e o reflexo negativo na economia, com a diminuição dos investimentos estrangeiros em toda a América do Sul diante da instabilidade do ambiente, afetam nossa vida de uma maneira ou de outra.
Diariamente, vemos na mídia assuntos ligados à má distribuição de renda, o desemprego, os investimentos governamentais insuficientes, a falta de acesso à educação de qualidade, a falta de acesso aos serviços básicos como alimentação, moradia e saúde, a corrupção e má administração dos recursos públicos. Tudo isso parece estar tão distante de nós! Mas não. São fatores que ajudam a aumentar a desigualdade social e isso faz crescer a violência e a criminalidade que nos afetam direta e indiretamente.
O lixo acumulado na casa do vizinho, parece ser apenas problema dele, como se não tivéssemos nada com isso, que devemos cuidar apenas do nosso quintal... Será? Estão aí a dengue, a zika, a febre amarela e a leishmaniose para provar que não. É problema nosso também. Quantos de nós, ou algum de nossos familiares teve uma dessas doenças, mesmo fazendo a tarefa de casa direitinho, como ensinam os órgãos competentes?
Alguém já disse: “o ser humano não é uma ilha”. E não é mesmo.
Hoje varri minha calçada. Achei por bem, varrer parte das calçadas vizinhas, da rua e recolher tudo direitinho, como minha mãe fazia.
“Melhor prevenir do que remediar”, ela gostava de repetir esse ditado.
Hoje sei, porque ela me ensinou e eu me dei a oportunidade de aprender. Enquanto puder, farei a minha parte e de quem mais precisar, para honrar as lições de minha mãe, armazenadas em mim. Uma vez sabendo disso, passa a ser meu dever cumpri-las com responsabilidade.

Mudança de planos

Wassily Kandinsky: Primeira Aquarela Abstrata. 1910. Museu Nacional de Arte Moderna. Paris

Acredito que muitas pessoas não trabalham na área que sonharam ou que tinham vocação.  A vida vai nos empurrando para determinadas situações e acontecimentos inesperados, podem mudar nossos planos, traçar outras rotas, seguir outros caminhos.
Comigo não foi diferente. Queria ser jornalista, repórter de campo, cobrir grandes acontecimentos de nossa história, eventos internacionais, premiações, etc. Eu não sonhava pequeno.
Via-me nas guerras, desvencilhando-me de bombas, com um papel e uma caneta na mão.
Pasmem, sou do tempo do “bloquinho”. Quem sabe entrevistas com famosos, músicos que eu amava, como Chico Buarque, Milton Nascimento. Adorava escrever e a redação de um jornal também poderia ser um dos meus destinos.
Com este sonho na cabeça, fui cursar Comunicação em Bauru. E, em meio ao curso, fomos informados de que não haveria habilitação para jornalismo, apenas para Relações Públicas. Tínhamos a opção de transferir para Ribeirão Preto ou São Paulo, caso quiséssemos.
Eu poderia ter feito isso. Mas eu estava há quase dois anos naquela cidade e não tinha sido fácil chegar até ali, com pouca grana no bolso, procurar um emprego e um lugar para morar, numa cidade desconhecida... Foi um tempo difícil. No começo, apenas uma refeição por dia, carona para ir à Faculdade, trabalhar e até visitar minha família aqui em Araçatuba.  Pouco mais de um ano, já tinha um salário que me permitia duas refeições ao dia, pagar ônibus em dias de chuva e até para as farras estudantis (ah saudade!).
Optei por me formar em Relações Públicas. Nem todos meus sonhos estavam perdidos. Um professor me convidou para trabalhar em uma agência de viagens que exploraria o turismo no pantanal mato-grossense.  Como ele mesmo me disse: é a tua cara! Na época achei estranho: quem iria viajar para o meio da mato? Eco... o quê? Mesmo achando uma ideia de malucos, aceitei o emprego. E foi aí que algo inesperado mudou o destino planejado.
Abri mão da oportunidade oferecida, voltei para Araçatuba. Filho, casamento, muitas obrigações e responsabilidades. Nada a ver com aqueles planos. Emprego? O que apareceu. Tudo que eu não queria, e também não podia, era ficar sem trabalhar.
Sempre trabalhei na área administrativa da Construção Civil e foi aí que continuei minha vida profissional até hoje. Os conhecimentos adquiridos na faculdade me ajudaram a não ficar apenas em cargos burocráticos, trabalhei com gestão de produção e de pessoas e atualmente, gerência comercial.
Nunca abri mão de um dos meus maiores prazeres: a leitura. Sempre que sobrava um tempinho, abria um livro. Por vezes, avançava a madrugada degustando textos variados que iam de romances à culinária.
Escrevia pouco, com uma certa timidez e nunca mostrava para ninguém. Há uns tempos conheci uma pessoa que também gostava de literatura, escrevia e que me apresentou ao Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras. Ingressei neste grupo, comecei a produzir meus textos e, o que sempre me foi mais difícil, expô-los.
 No meio desta convivência com estes amantes da literatura, fui apresentada, por uma amiga, aos microcontos.  Em tempos de vida virtual, avanço tecnológico, tempo curto, pouco espaço e leituras digitais, este formato de literatura era “a minha cara”.
Em pouco tempo, criamos uma página no Facebook: Microconto Fátima Florentino. Deu certo e nossa página foi e está muito bem sucedida, obrigada! Hoje, o Grupo Microconto Fátima Florentino conta com mais de quinhentos integrantes.
Ontem, 21/05/2019, ao receber o Troféu Odete Costa, na categoria Literatura, em nome do nosso grupo, agradeci a Deus, cada mudança de plano que ocorreu em minha vida, porque no final, apesar dos pesares, tudo deu e continua dando certo. Muito obrigada, meu Deus!

*Maria Fátima Florentino é escritora, microcontista, coordenadora do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras 

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