sexta-feira, 2 de julho de 2021

Bolsa de Valores - Reynaldo Mauá Júnior

Aquele espaço, em região nobre da cidade, formado por sobrados e casas geminados, habitados por jovens empreendedores nos ramos mais modernos, como startups, fintechs, blogs etc, bem sucedidos (tanto na vida econômica quanto na social), teve um pequeno abalo. Não foi sentido por todos os moradores, mas, para alguns, foi como uma bomba de neutrons, caísse sobre suas cabeças.

A causa? A nova vizinha, Carminha (CaCá, para os mais interessados), mudou-se num sábado de manhã. Sua pouca mobília e demais pertences não necessitaram de mais do um dia para serem colocados pra dentro do pequeno apartamento. Diga-se de passagem, adquirido com o “suor” de seu trabalho de secretária executiva de um conglomerado internacional de rede de hotéis de luxo.

CaCá era tudo o que um homem, com saúde perfeita, condicionamento físico em dia, e disponibilidade para curtir momentos estimulantes e instigantes, sonhava dia sim, dia não.

Mesmo disfarçando, os marmanjos do condomínio não conseguiam dissimular completamente a atenção dispensada aos descuidados deslocamentos da garota. Não conseguiam ocultar nem as olhadelas de rabo-de-olho, quando ao lado de suas respectivas parceiras. Essas, percebiam, mas não davam o braço a torcer, temendo uma crise maior nos relacionamentos. É sempre melhor um pássaro na mão do que nenhum. É fato estudado que, nos dias de hoje, a convivência entre duas pessoas está cada vez mais volúvel e fugaz. O que justificaria tais atitudes.

Paula começa a ficar de olho mais apurado nas atitudes do marido, Walber, nessas ocasiões. Senhora de si, passa a reclamar dessas condutas do maridão e inicia uma sessão de perturbações físicas e emocionais, alfinetadas, reclamações e ameaças que tiravam o sossego do cara.

Paula entendeu que o jeito e as maneira, o comportamento e os modos de CaCá eram dignos de tirar o sossego da “homarada” do lugar e decide levar o caso à assembleia de condomínio, apontando o comportamento da moça como “prática de oferecimento e indução de gêneros sensuais”. Sendo, sem muito debatimento, aceito pela maioria das moradoras presentes. É bom dizer que não houve o comparecimento dos homens do lugar, que se abstiveram de passar por algum sufoco ou situação constrangedora ao expressar suas posições sobre o caso e fraquejarem ante alguma atitude complacente.

Por unanimidade, decidiram que, para o bem geral dos corações apertados, a moça não poderia morar sozinha. Ou arranja um companheiro, ou procura outra freguesia.

CaCá, como garota sensata e sem alternativas, concorda. E no dia seguinte leva o “namorido” atual, Beto, para dividir o ninho.

Como a vida é cruel! O moçoilo é o maior gato da paróquia. Bonito, simpático e charmoso. E a situação se inverte. As madames é que ficam em alvoroço. Os momentos dos banhos e bronzeamentos na piscina do condomínio viram domingão de verão no clube. Todo mundo querendo um lugarzinho naquele Sol de glamour erotizado.

Paula, que não parece boba e nem nada, chama Walber de lado e propõe um acordo de cavalheiros: “Ariscar uma troca de casal com CaCá e Beto, nem que seja de vez em quando. Ninguém perde, todos ganham.” Walber, agente da bolsa de valores, acostumado com as idas e vindas de um mercado selvagem, vê nesta proposta uma grande oportunidade e aceita mais que depressa. Antes que outro aventureiro lance mão.

Oferta aceita, planos traçados, hoje todos vivem felizes. Às vezes pinta um ciumezinho, apenas pra quebrar a monotonia que antes existia.




Reynaldo Mauá Júnior
– Academia Araçatubense de Letras

 


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