quinta-feira, 8 de julho de 2021

Perfumes da Memória - Eliane Martos


         
Há algum tempo, uma certa propaganda, perguntava: “O que faz você feliz?”

         Então, nos mostrava cenas do cotidiano, tais como: um doce, a praia, um beijo ou goiabada com queijo...E por aí vai.

         O fascinante é que se você se dá conta de que tantas coisas, tão simples, que passam por nós em nossos dias ditos comuns, são o que importam de verdade...

         O dinheiro, o sucesso, ou ganhar na tal da Mega. Tudo isso vale menos do que poder relaxar tranquilo numa tarde de outono. Ou comer brigadeiro de panela.

         E começamos a perceber que um bom livro, ou um bom dia com um sorriso no olhar, um abraço daqueles de matar saudade, ver seu bichinho de estimação esparramado pelo chão, um luar daqueles de fazer clarão, barulho de chuva, calor nadando no rio, coberta e chocafé num dia de frio. É o que realmente importa.

         Acho bem pouco provável que se eu vier a lhe perguntar o que desejaria para ser feliz, você me responderia: uma Ferrari

         Não seria nada mal, mas acredito firmemente, que me responderia no ato que o que o faz feliz é o bem estar de quem se ama: a saúde, a segurança sua e de todos a quem quer bem.

         Dia desses ao ouvir a música “O Perfume da Memória”, de Oswaldo Montenegro, tive esta epifania: o que realmente importa, que nos faz viver, querer continuar. Seja em paz, seja a lutar, são os perfumes da memória gravados em nossa alma.

         Faço-lhe agora um desafio: contar-lhe-ei um de meus perfumes, e depois você fechará seus olhos e trará para a superfície um de seus melhores perfumes da memória, combinado? Vamos lá!

         Há muitos anos, já muito longe de casa, fui corriqueiramente lavar roupas. Havia trocado aleatoriamente a marca do amaciante. Para minha surpresa, ao pendurar as roupas no varal e sentir “aquele perfume”, me vi novamente uma criança que abriu a porta num dia frio e viu a mãe toda molhada a cuidar das roupas. Lembro que ela ralhou comigo: “Vá se agasalhar, tem bolo e chá sobre a mesa!”.

         Quando o perfume do amaciante me fez lembrar daquele momento, eu me vi ali, sem chá, sem bolo, mas com o perfume que me mostrava que, mesmo estando minha mãe molhada e com frio, preocupava-se conosco, em nos aquecer. Percebi que aquele perfume era de amor e cuidado!

         Tantos perfumes da memória temos nós guardados na alma: o cheiro de café que te lembra uma tarde deliciosa com alguém que ama, cheiro de pão da vó, do perfume de um amigo que você nunca mais viu. Cheiro de mar, de fruta colhida no pé, de chocolate e aquele perfume que descaradamente te inebria a alma!

         São as coisas simples, que muitas vezes nos passam quase desapercebidas que nos fazem feliz!

         Faz-nos sorrir sem perceber, chorar sem querer, e às vezes desatentamente chorar de tanta felicidade...transbordar sorriso em lágrimas!

         Não gosto de utilizar “termos de modinha”, mas devo dizer que este tal de NOVO NORMAL não me agrada nem um pouco, pois coloca em desarmonia essa vida corriqueira, que aproxima da família, dos amigos. Nos distancia, nos isola, e isso, não sei até quando vai durar.

         Mas já vou deixar marcado, quando esta loucura passar, quero um abraço apertado para a saudade matar.

         Por hora nos resta o resguardo, a paciência (que nunca tive) e a fé de que tudo vai passar, e enfim nos reuniremos pra comemorar nosso VELHO NORMAL.

         Deixo a vocês o melhor presente que se pode neste momento desejar que você tenha e relembre muitos perfumes da memória. E que alguns te façam rir e chorar!

         Sei que logo poderemos nos reencontrar, e assim, sem perceber, nossos perfumes misturar! Até breve!

 


Eliane Martos é
membro do Grupo Experimental da AAL e youtuber no canal: Crônicas de Quinta


 

 

 


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