segunda-feira, 5 de julho de 2021

Relato de uma mãe educadora – Fernanda Colli

 

 

Este não é um texto sobre poesias e flores. Nem ao menos um texto conceitual fundamentado em grandes pesquisas. Ah! também não é um texto sobre malabarismo. Tenho certeza de que você mãe e educadora irá se identificar com este relato: o relato de uma educadora e mãe no contexto pandêmico.

 

A pandemia da covid-19 e as diversas mudanças na rotina, trouxeram uma quantidade e atividades e de adaptações que afetam cada vez mais o cotidiano de todas nós educadoras, principalmente mães.

Além de utilizarmos a casa um dos nossos ambientes de trabalho, visto o ensino híbrido, ora remoto ora presencial, ainda sobram outras tarefas além do grande desafio da carreira de docente: os cuidados com a família, as atividades domésticas e o desenvolvimento dos filhos bem como o acompanhamento de seus conteúdos escolares, por exemplo. São tarefas muitas vezes exclusiva das mulheres ou pouco compartilhada com os outros membros da casa.

 

A primeira impressão, sob um olhar superficial, poderíamos dizer que o home-office para as mães seria um fator positivo, afinal, estaria tudo no mesmo espaço, mas na prática, essa teoria cai por terra: vemos a precarização da vida das mulheres, considerando que a casa é um lugar de sobrecarga de um trabalho não remunerado.

 

Sei bem como é isso. Sou professora e mãe de duas pequenas, uma com 2 anos e outra com 5 anos, além disso trabalho em duas escolas, portanto, dobro período. Ao chegar em casa no final do dia, me dedico ao cuidado de minhas filhas, da casa, alimentação e preparar o material e as aulas para o próximo dia. Esse é um malabarismo constante entre trabalho, casa, família e sentimentos.

 

Já tive dias ruins por conta de ir até a escola cansada pela quantidade de serviço doméstico; dias ruins por não ter conseguido preparar uma aula adequada por conta do computador que não está funcionando muito bem. A cobrança no trabalho aumentou, pela direção e por parte da sociedade, que acredita que os professores não estão trabalhando. Realmente, não é fácil. Não está fácil.

 

Minhas sensações coincidem com o de muitas outras professoras. Elas sentiram que a pressão da sobrecarga se manifestou mais forte durante a pandemia, em decorrência com o aumento do tempo dedicado às demandas do ensino remoto – por exemplo, tempo gasto para gravar (e regravar) os vídeos, editar os materiais, manter comunicação com as famílias e produzir relatórios de acompanhamento das aulas.

 

Eu que vivencio todos os papéis do ensino remoto – de professora, gestora e aluna –, me sinto esgotada emocionalmente e fisicamente, com uma sensação de frustração por sentir que não dá conta, é preciso entender que no atual momento não há outra alternativa a não ser acreditar que mãe sempre dá conta, porque temos que seguir.  

 

Acredito que a casa é o melhor lugar para se estar e minha família é o meu porto seguro, nosso motivo de luta constante, de cuidado e amor.

 

O desafio do mães, professoras e malabaristas segue na quarentena, mas a longo prazo é preciso repensar estruturas. "Não dá para abandonar as mulheres. É preciso ver o mundo de outra forma, repensar os prazos e entregas.

 

Entenda uma coisa: você é maravilhosa. Por estar aqui, por acreditar na educação, por ser um pilhar tão importante na estrutura de sua família e de toda a sociedade. Vai passar. E estaremos aqui, mais firmes, fortes e melhores, juntas.

 

Para você que se identificou com o meu relato, sinta-se abraçada, com aqueles abraços mais demorados, mais calorosos e mais sinceros. Você não está sozinha e merece todas as homenagens do mundo. Meu relato busca acalentar as angústias de todas as mães que tanto sofrem nessa pandemia. Estamos todas juntas. Por e para um mundo melhor.

 


Fernanda Colli
é membro do Grupo Experimental da AAL

 

 

 

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