Quem falou sem questionar e decretou que chorar é sofrimento?
Só traz dor, só traz lamento!
Pois eu digo o contrário. Chorar é muito necessário, e vou agora lhe
mostrar...
A gente chora de verdade, sem se preocupar com vaidade, só pelo que é
importante!
O choro gritado, da primeira vez que nos toca o ar, quando chegamos ao
mundo, sem saber bem aonde estamos, aonde viemos parar!
O choro de medo, do monstro que mora debaixo da cama, que faz a mãe
levantar, olhar tudo e garantir que nada vai pegar você!
E o primeiro dia de aula? Que sufoco, que aperto ficar de repente tão
“sozinho” com aquele monte de gente diferente! Não tem jeito, uma lágrima vai
escorrer, e não tem como segurar.
O choro, contido, mas doído, por tão novo ter que entender que nem
sempre dá para ganhar aquela bola nova, com a qual tanto você queria jogar!
Lembra daquele disco, de vinil, que quando foi colocar na capa o deixou
cair? Ah, os Beatles não fazem ideia do quanto você chorou por antecipação
antes do seu pai descobrir!
E lembra ainda, de quando no frescor da
adolescência, seu tão infante coração se partiu em mil pedaços pelo seu
primeiro amor? Ah, doeu demais! Você achou que era o fim. E na verdade, era
apenas o começo de seu desabrochar para a paixão!
Há também aquele choro de emoção, que transborda em lágrimas, sorrisos e
soluços para o mundo, tudo que não cabe num só pagão!
Tem o choro de saudade. Ah, meu Deus, quanta maldade afastar quem nos
quer bem!
O choro de dor, que vem junto com o tombo: no asfalto ou na vida! E não
importa o tamanho da ferida, ela vai cicatrizar.
Ah, e é bom deixar bem claro aqui; saibam que homem chora sim. E sabe
que chorar não é fraqueza, mas sim força de nossa natureza para abrandar o que
excede nossa dor!
Temos o dia de chorar por ser vítima; e o dia de chorar por ser algoz
(sem querer sê-lo), e acabar por magoar alguém que nos é muito caro.
Quando vem o luto, e nos coloca de joelhos, somente chorar acalma um
pouco a dor que teima em nos sufocar, enquanto tentamos nos aninhar no abraço
de alguém que está ali com a esperança de, ao menos um pouco, nossa dor
consolar.
Fato é que o choro lava a alma, acalma a dor, nos faz mais fortes, e às
vezes, mais humildes.
Às vezes vem com a explosão da alegria ao molhar nosso sorriso, quando
tanto sentimento não cabe em nosso coração.
Então deixo aqui a minha dica: Chore!
Chore ao ver seu filho nascer...
E o filho do seu filho!
Chore ao martelar o dedo. Ou ao chutar a quina do sofá.
Chore na rodoviária ou no aeroporto ao se despedir de um grande amor. Já
sabendo que vai chorar de emoção quando ele regressar.
Vai lá e chora ao conquistar o sonho tão labutado, que tanto exigiu de
você, mas que o fez laureado pois exigiu tamanha luta para tê-lo conquistado.
Chore no meio da oração, pra agradecer ou pedir perdão, ainda que o sono
e o cansaço não deixem você terminar.
Sim, eu também chorei!
Minha blusa, o travesseiro e o ombro do amigo eu molhei. E quer saber?
Depois do momento em que a gente se dilacera; vem a paz da alma lavada,
que nenhum outro banho trará!
Vai. E chore por tudo que vale a pena! Só não chora quem não vive. Quem
não sofre ou comemora. Quem tem medo de amar... Quem tem medo de ir embora... Ou
quem teme regressar.
Pois nesta vida aprendi, por ver e viver, aprendi que triste mesmo é não
chorar!
Eliane Martos é membro do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de letras (AAL); escritora, jornalista youtuber (canal: Crônicas de Quinta).


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