Francisco e Anita foram criados no mesmo quintal. Cresceram juntos, brincavam, estudavam na mesma escola. Na adolescência, foram descobrindo um novo sentimento. Certo dia, assistiam a um filme juntos e enredo o casal fazia um pacto de sangue jurando amor eterno. Acharam aquilo o máximo: saíram do cinema e fizeram também o pacto deles: um pequeno corte no pulso, o sangue se misturando, nos olhos pureza, desejo, inocência, promessas. O tempo passou, se encarregou de mandá-los para longe. Continuaram se comunicando com frequência, agora eram namorados, driblando as dificuldades do encontro como era possível. Chegaram a faculdade: ele foi cursar Direito, ela, serviço social. O namoro seguia morno: pareciam mais um casal de amigos, nunca discutiam. Ele estava determinado a seguir carreira na polícia. Ela, pensava cada vez mais em se engajar em causas humanitárias, fora do país. Falavam pouco de suas pretensões, talvez pressentindo que a distância entre eles aumentava, não somente a distância física. Num dos encontros que tiveram, Francisco implicou com o perfume que ela usava: disse ele que lembrava dama da noite, uma flor que ele detestava o cheiro. Na faculdade, Anita conheceu Eduardo, que usava um perfume incomum: o rapaz cheirava a lírio: flor que, no cristianismo, símboliza a Virgem Maria. Os dois sentiram uma afinidade muito grande. Num certo momento, ele a convidou para jantar. Convite aceito, enviou a ela um ramalhete de rosas vermelhas. As rosas por si só deram seu recado: são associadas ao amor profundo, são as flores clássicas de quem deseja se declarar. Ela recebeu o recado e gostou. Ele a levou num bom restaurante, onde nas mesas havia vasos com lírios brancos: o amor estava ali representado por essa flor, cara, delicada, de muito bom gosto na decoração. Enquanto jantavam, bem distante dali, Francisco retornava da faculdade exausto. Na mesa da cozinha, um pequeno vaso de violetas, presente de Anita, a primeira vez que ali esteve. Ele por dias, se esquecera de colocar água na planta, a flor estava seca, as folhas com as bordas queimadas pelo desprezo, pela falta de cuidados. Fez a ligação da planta com os sentimentos que nutria por Anita. O relacionamento não ia bem: já não se esforçavam para se ver. Ele resolveu que, no próximo encontro, seria honesto com ela: não desejava mais esse relacionamento, queria focar na carreira, aproveitar mais a vida de solteiro. Casamento não estava nos seus planos: não queria alimentar ilusões, a moça não merecia. Anita demorou para dormir naquela noite. Eduardo mexeu com suas emoções: revivia a conversa, os sorrisos, coração acelerado. Decidiu que precisava falar com Francisco, pedir um tempo no relacionamento deles: ela não tinha mais certeza de seus sentimentos por ele e não era justo enganá-lo. Amor e flor precisam ser regados, podados, adubados, precisam de luz, de afeto, de presença. Refazer o jardim é preciso: ainda restaria uma bela e sincera amizade, uma flor que os ventos podem soprar, mas suas pétalas jamais cairão.
(*) Alice Silva, escritora, secretária do Grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras (AAL).


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