segunda-feira, 26 de julho de 2021

Loucure-se - Eliane Martos



Dizem que sou louco!
Não sei do que estão falando, mas sei que dizem “sou louco”!
E que isso não se oculte. Que seja! Que sejam! Sejamos!
Às vezes, é quase insuportável atuar bem e o nosso papel. Isso porque não fomos nós que o escolhemos; mas temos que ir vivendo, tentando fazer nosso melhor.
Porém, de vez em quando, cabe questionar o roteirista. Dizer que este personagem não combina, e pedir que o rascunho da história seja revisto.
E se reclamam dos nossos excessos, do seu jeito de viver, assim, intensamente. Com muito amor e paixão; com muita luz, esperança e emoção; com muita fé em acreditar que o mundo ainda é ‘bão’. Não se incomode; não se magoe.
Muitas vezes quem nos critica não tem a força que exige a vida para viver com o coração.
Às vezes, é o mundo que está do avesso; e requer nosso recomeço para expor a sua e a nossa vastidão!
E quando tudo que fizer não lhe tiver mais sentido. Quando já não houver sequer motivo para te fazer caminhar.
Quando as agruras da vida lhe fizerem definhar, então, caro amigo, é chegada a hora de ser louco!
Dançar. Cantar até ficar rouco! Amar seu próximo. Sorrir e abraçar de verdade, sem vergonha, sem vaidade.
Ser poeta. Ser palhaço. Voar!
Sim! Faça de teu filho, sobrinho ou neto um avião e voe com ele. Perceba e recupere ali a capacidade de voar com um sorriso fácil no rosto, sem tirar os pés do chão, mas com a alma nas alturas!
Como diz o Oswaldo: faça um carnaval no engarrafamento...
Ou, como diziam os Mutantes: acredite que mais louco é quem nos diz e não é feliz!
Vamos fazer seresta na calçada, até alta madrugada!
Recite, declame com paixão teu poema preferido! E daí se para o outro não é bonito?
Cante no chuveiro, alto, desafinado. E se reclamarem, cante bem mais alto.
Dance como se ninguém estivesse olhando, tenha você, sete ou setenta anos!
Escolha, de vez em quando, a estrada de terra ao invés do asfalto, para poder admirar a beleza oculta da natureza que cada vez mais se esconde por detrás do concreto das cidades.
Tenha longas, sérias e filosóficas conversas com seu cachorro. Acredite, ele é bom ouvinte.
Ligue para pessoas queridas...nem que seja por um minuto, só pra dizer: “E aí, tudo bem contigo? Qualquer coisa estou aqui”! Isso mesmo, eu disse ligar, não mandar um “zap”. Dê uma de doido e lembre que o telefone ainda serve para telefonar!
Tome sorvete no inverno e chocolate quente no verão. Quem vai dizer que não? E se reclamarem, coma a sobremesa antes do jantar!
Tome banho de cachoeira, mesmo que a água esteja gelada. Acredite, vale a pena.
Saia para beber com seus amigos e não venha com a desculpa: “Ah, mas eu não bebo!”
O que importa mesmo é ir. Tome até tubaína, se for de sua preferência. O que conta aqui é a convivência, os abraços e sorrisos. E aquele clima gostoso de fim de tarde, fim de semana, fim do cansaço e da saudade!
Pois vivendo assim, sem preconceitos, com seriedade e um toque de boemia, levando vida simples e serena, consegue ser feliz, com pouco, mas com o que vale a pena!
E ouso lhe dizer ainda que é preciso mesmo ser um pouco louco...
Pois a vida é cheia de cores e amores, dificuldades, dissabores. Mas é a luta feita com alegria e honra que faz vida valer a pena!
Mas se ainda assim ouvir dizer por aí, em cochichos, às escondidas, que somos loucos. Que saibam que somos!
E que nossa loucura seja espalhada; para que talvez assim, com menos tons de cinza, nossas cores causem cura.
Que nossa loucura perdure... E em caso de excesso de lucidez: loucure-se !


Eliane Martos, jornalista, escritora, membro do Grupo Experimental da AAL e youtuber (canal: Crônicas de Quinta).


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